Daniela Ruah: “É fácil sermos puxados para o lado mais obscuro de Hollywood” - Caras.pt

Daniela Ruah: “É fácil sermos puxados para o lado mais obscuro de Hollywood”

A atriz falou do caminho que tem percorrido nos EUA e da forma como lida com o sucesso e a rejeição.

11 Fevereiro 2012 às 10:00

Daniela Ruah
Daniela Ruah
Daniela Ruah
 

A viver nos EUA há quatro anos, Daniela Ruah, de 28 anos, é a personificação do american dream. Desde que deixou Portugal, a família e os amigos, para rumar em busca de um sonho, tornou-se a atriz portuguesa mais conhecida do grande público a nível internacional, já que faz parte do grupo de protagonistas da série NCIS: Los Angeles.

Foi durante um intervalo nas suas férias em Portugal, já que todos os minutos são para matar saudades da família e dos amigos, que a CARAS conversou com Daniela sobre os obstá­culos e sucessos do seu percurso, mas também sobre a forma como já encara uma das suas maiores vontades: ser mãe.

– Quando decidiu apostar numa carreira internacional, imaginava este sucesso?

Daniela Ruah – Por um lado, acha-se sempre que um sonho tão grande é difícil de atingir, por outro, havia qual­quer coisa que me dizia que poderia acontecer, por isso é que me esforcei tanto. Se achasse que era um sonho impossível, teria apostado noutra carreira qualquer. Nunca pensei chegar onde estou, mas tinha de acreditar que seria possível.

– Hoje em dia sente com certeza mais responsabilidade a nível profissional...

Sem dúvida. A responsabilidade vem principalmente de Portugal, pois não sinto que nos Estados Unidos tenha notoriedade suficiente para isso. Por exemplo, através do Twitter tenho imensas seguidoras portuguesas jovens que dizem que gostavam de seguir os meus passos e aí percebo que tenho uma enorme responsabilidade em mostrar não só que é possível, como dar um exemplo saudável de como as coisas devem ser feitas. O meio ‘hollywoodesco’ pode ser muito negro... Graças a Deus, nunca tive essa experiência, nunca me envolvi no lado mais obscuro de Hollywood, mas existe e é muito fácil sermos puxados para esse lado se não tivermos sorte. Eu tive imensa, em especial com o elenco com que trabalho, pois estou rodeada de pessoas psicologicamente saudáveis, casadas, com filhos, e isso ajuda muito a estabilizar a nossa vida, pois é o exemplo que temos à volta.

– Acredita que o seu sucesso também se deve à sorte ou tem somente a ver com empenho?

Tem a ver com tudo. O meu tio costuma dizer: “Quanto mais trabalho, mais sorte tenho.” É claro que tenho sorte por me terem surgido algumas oportunidades, mas isso também não aconteceria se eu não tivesse batalhado. Não posso estar à espera de uma carreira internacional se ficar em Portugal para o resto da vida. Infelizmente, a nossa indústria cinematográfica e televisiva é tão pequena que não há ninguém fora de Portugal que a veja, com o acréscimo de que a nossa língua não é falada em todo o lado como a inglesa. Claro que exige empenho e sorte, é uma mistura de coisas.

– Em Los Angeles tem tido sempre trabalho...

Desde que fui para Los Angeles sim, porque a série me levou para lá, mas em Nova Iorque ainda andei às voltas e a bater às portas. Primeiro para tentar arranjar um agente e depois para os castings. Fui rejeitada algumas vezes, mas faz parte do processo.

– Essas rejeições ajudaram-na a crescer ou houve alturas em que foi complicado aceitá-las?

Ninguém gosta de ser rejeitado, mas esta é uma indústria em que isso acontece mais de metade das vezes. Entre os atores que vão tentar a sua sorte, há um número pequeno que consegue realmente fazer algo e construir uma carreira longínqua. Estou a fazer a série e espero continuar a trabalhar depois disso, pois há atores que são prejudicados por ficarem conotados com a personagem que fizeram.

– Mas protagoniza o novo filme de George Lucas, Red Tails...

Foi gravado antes da série, há três anos, mas só vai estrear agora. Cheguei a fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

– Com as gravações da série, não deve ser fácil ter tempo para outros trabalhos...

Exatamente. Tenho um período de férias de dois meses e meio no início do verão e se já é difícil escolherem-nos para fazer um filme, quanto mais que este calhe exatamente na nossa época de férias... A única coisa que me relaxa é o facto de ter este trabalho garantido. Tenho um ordenado fixo e consigo viver da minha profissão.

– Essa é também a maior preocupação de um ator?

Claro que sim e por isso ponho dinheiro de lado e poupo para, caso esteja desempregada algum tempo, tenha possibilidade de me sustentar sem ter de trabalhar noutra área.

– Referiu que a sua notoriedade em Los Angeles não é a mesma que cá, mas é bastante reconhecida...

Reconhe­cida, sim, mas o carinho que as pessoas têm em Portugal por mim é diferente. Aqui conhecem-me desde os 16 anos, viram-me crescer e concretizar um sonho de que falava há muito tempo.

– Apesar de todo o sucesso, conti­nua de pés bem assentes na terra...

Sim, toda a gente ‘topa’ atitudes de vedetismo, incluindo a própria indústria. Os atores que têm um currículo enorme não sentem necessidade de ser arrogantes ou seletivos com os amigos.

– Já lhe atribuíram uma relação com um colega de trabalho, Eric Christian Olsen...

[risos]. No dia seguinte ele escla­receu que era noivo de uma amiga minha, que conheci através dele, com quem namora há cinco anos. Quando essa notícia saiu ria-me sozinha, pois ele é um dos meus melhores amigos, trabalhamos juntos todos os dias.

– Mas lida bem com esse género de especulações?

Não lido sequer, fecho-me a essas coisas. Não me interessa nada o que dizem.

– Tem conseguido gerir bem essa parte privada da sua vida...

Porque nunca dei nada. A única pessoa de quem eu falei abertamente foi do namorado que tinha quando comecei a fazer novelas, pois na altura não tinha noção. Acho importante que uma pessoa se proteja dessas coisas.

– Isso vem da sua educação ou foi algo adquirido ao longo da sua carreira?

Há duas razões principais para eu não falar da minha vida privada: a primeira é porque acredito que há qualquer coisa que tem de ficar somente para nós, família e amigos, já que temos uma profissão que é pública; a segunda é porque quando alguém vê o meu trabalho não quero que esteja e pensar nas mil coisas que esteve a ler nas revistas. Claro que podem inventar coisas e as pessoas decidir se acreditam ou não, mas da minha boca jamais sairá algo. Esta é a minha postura neste momento. No dia em que me casar, e se me apetecer apresentar ao mundo o meu marido, fá-lo-ei, mas neste momento não sinto necessidade de partilhar a minha vida pessoal.

– E o casamento faz parte dos seus planos ou está somente focada na sua profissão?

Temos tempo para tudo. Tenho 28 anos e não digo que esteja a ficar velha, mas naturalmente o meu relógio biológico já começa a soar mais alto... Começo a ter uma atitude diferente em relação às crianças e no fundo tem mais lógica construir uma família enquanto estou a fazer a série e tenho trabalho, pois sei que não o perderei se engravidar. Se estivesse a fazer uma carreira só cinematográfica seria mais difícil, pois não poderia ir a um casting grávida para fazer um papel de ‘boazona’. Acho que é muito mais fácil construir uma família enquanto estiver a fazer qualquer coisa como a série do que quando estiver a saltar de filme em filme, a não ser que tenha uma carreira já solidificada.

– A maternidade poderá ser uma de­cisão a curto prazo?

É uma coisa que gostava de fazer, mas não sei quando será... Um ano, dois, cinco... Quando sentir a altura, acontecerá.

– Já foi considerada uma das mulheres mais sexy do planeta. Como lida com isso?

[risos]. Há vários tipos de sensualidade e cada pessoa tem a sua opinião sobre isso. Para mim a sensualidade vem muito do à-vontade que a pessoa tem consigo própria. Sou muito low profile e gosto é de andar de jeans, T-shirt e sapatos rasos quase todos os dias. Estou à vontade comigo própria e já reparei em pessoas que não são estereotipadamente bonitas, mas que têm imensa autoconfiança e há imensa coisa que atrai nelas. Acho isso muito mais sexy do que o estereotipo de peito grande, saia curta e decotes. Quanto a mim, alguém me achou sexy... [risos].

– Já se sente preparada para en­trar nos 30?


Não tenho receio nenhum e as rugas não me preocupam nada. Trato muito bem de mim e quando começarem a aparecer essas coisas, logo se vê, há muita maneira de as esconder. Cada ano que vivi trouxe-me coisas melhores e não tenho medo do que se avizinha. Claro que os 30 são um marco para qualquer mulher, pois começa-se a pensar que já se deveria ter filhos e família. Julgo que é mais uma pressão biológica.